Mari Krüger alerta para desinformação sobre saúde e influência da inteligência artificial nas redes sociais

Divulgadora científica abriu programação do Novo Hamburgo Feevale Summit 2026, nesta terça-feira, 15, no Teatro Feevale

Por Ester Ellwanger

A ciência, a inovação e os desafios da circulação de informações nas redes sociais marcaram a abertura do Novo Hamburgo Feevale Summit 2026, realizada na noite desta terça-feira, 15, no Teatro Feevale. A palestra de abertura teve como tema Desinformação na era das redes e foi conduzida pela bióloga, atriz, criadora de conteúdo e divulgadora científica Mari Krüger. Promovido pela Universidade Feevale, o evento contou com falas do reitor José Paulo da Rosa e do prefeito de Novo Hamburgo, Gustavo Finck, que destacaram a importância da articulação entre universidade, poder público, empresas, empreendedores e comunidade para o fortalecimento do ecossistema de inovação da região.

Ao dar as boas-vindas ao público, o reitor José Paulo ressaltou o papel do Novo Hamburgo Feevale Summit como espaço de encontro entre diferentes atores da sociedade. “É uma grande satisfação receber vocês e poder dar início a este importante evento. Este encontro representa um grande movimento de inovação que queremos fortalecer em Novo Hamburgo e em toda a região. Temos aqui empreendedores, startups, estudantes, pesquisadores, instituições, empresas e tantos outros que, juntos, formam uma parte fundamental dessa grande hélice do nosso ecossistema de inovação”, afirmou.

O reitor também convidou os participantes a aproveitarem os três dias de programação para estabelecer novas conexões. “É essa conexão que permite movimentar e fortalecer o nosso ecossistema de inovação em Novo Hamburgo e na região. Por isso, é uma grande satisfação receber todos vocês. Aproveitem muito a programação, tragam suas ideias, façam conexões, conheçam pessoas e aproveitem cada oportunidade que este evento oferece”, completou.

 

 

Na sequência, Finck destacou a relação entre inovação, desenvolvimento e transformação de Novo Hamburgo. “É uma grande satisfação estar aqui, em um evento que representa a renovação e o futuro de Novo Hamburgo. Tenho certeza que podemos fazer desta cidade uma referência e, principalmente, mostrar que Novo Hamburgo tem muito a ensinar para outras cidades e para os nossos jovens que estão aqui hoje”, afirmou.

Ao relacionar o tema à atuação do poder público, Finck ressaltou que a inovação também deve resultar em melhorias concretas para a população. “Falar de inovação é falar também sobre futuro, sobre transformação e sobre uma gestão pública cada vez mais eficiente e próxima das pessoas. Que tenhamos grandes dias de evento, de muito conhecimento, inovação, tecnologia, troca de experiências e, principalmente, de ideias que possam se transformar em ações concretas para melhorar a vida das pessoas”, disse.

Desinformação sobre saúde ganha espaço nas redes

Com cerca de quatro milhões de seguidores somados em suas redes sociais, Mari apresentou ao público uma reflexão sobre a forma como a desinformação circula na internet, especialmente quando envolve saúde, bem-estar, alimentação e aparência.

Ao iniciar a discussão, Mari chamou a atenção para a dimensão do problema a partir de dados sobre publicidade relacionada à saúde nas redes sociais. “Pode parecer um pouco assustador no começo, mas depois tudo vai fazer sentido”, afirmou. Na sequência, apresentou dados de uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizada em 2025 e que analisou seis mil anúncios nas plataformas da Meta. Segundo os dados citados pela palestrante, 76% dos anúncios relacionados à saúde foram considerados fraudulentos.

A partir desse levantamento, Mari explicou que o problema não está restrito às informações falsas compartilhadas espontaneamente pelos usuários. “Quando a gente fala em anúncios, estamos falando de conteúdos patrocinados: ou seja, pessoas e empresas estão investindo dinheiro para fazer essas informações chegarem até nós e, em muitos casos, ganhando dinheiro com informações falsas ou enganosas sobre saúde”, destacou.

Segundo a divulgadora científica, a publicidade enganosa se torna ainda mais preocupante porque pode alcançar tanto quem procura uma solução para um problema de saúde quanto pessoas que simplesmente estão navegando pelas redes. “Essas informações podem chegar justamente a pessoas que estão procurando uma solução para um problema de saúde. Mas elas também podem simplesmente aparecer enquanto alguém está rolando o feed, sem sequer estar procurando por aquilo”, explicou.

Mari ampliou a discussão para o chamado mercado de wellness, que reúne produtos e serviços associados à saúde, ao bem-estar e à transformação corporal. “Wellness é esse mercado que vende soluções para melhorar a nossa saúde e o nosso corpo. Eu costumo dizer que, muitas vezes, ele acaba explorando as nossas inseguranças e necessidades de saúde mais do que propriamente resolvendo os nossos problemas”, afirmou.

Nesse contexto, ela citou outra pesquisa, voltada a conteúdos de wellness no TikTok, que encontrou alegações sem evidências científicas em 97% dos conteúdos que divulgavam ou recomendavam determinados suplementos. Para Mari, a forma como essas publicações são construídas contribui para que publicidade e informação pareçam ser a mesma coisa. “Geralmente, ele vem de um influenciador, de um criador de conteúdo ou de alguém que possui um link comissionado. O formato é quase sempre muito parecido: aparece uma história pessoal, um problema de saúde ou uma insatisfação com o corpo. Depois vem um antes e depois, uma promessa de resultado e, finalmente, um produto apresentado como a solução”, descreveu.

A palestrante destacou que o público nem sempre consegue perceber quando uma recomendação está associada a uma relação comercial. “Aquele conteúdo que parece apenas uma recomendação pode, na verdade, ser uma publicidade. E aquela informação que parece científica pode não ter nenhuma evidência científica suficiente por trás”, alertou.

Redes sociais como fonte de (des)informação

Outro ponto abordado foi a mudança no papel das redes sociais. Mari apresentou dados de uma pesquisa do Datafolha, também de 2025, segundo a qual mais da metade dos brasileiros utiliza as redes sociais para se informar sobre saúde. “As redes sociais não são mais apenas um espaço onde a gente procura entretenimento. Elas também se tornaram um lugar onde a gente procura respostas para dúvidas sobre o próprio corpo, sobre doenças, tratamentos, alimentação, medicamentos e bem-estar”, afirmou.

Para ela, essa transformação aumenta a responsabilidade de quem produz e compartilha conteúdo, especialmente porque nem toda informação chega ao usuário a partir de uma busca consciente. “Às vezes, a pessoa está procurando uma resposta. Mas, muitas outras vezes, ela simplesmente está navegando pelo feed e é impactada por uma informação que o algoritmo decidiu mostrar para ela”, explicou.

Mari resumiu o cenário a partir da combinação entre tecnologia, publicidade e comportamento do consumidor. “Pensem na combinação: informações sobre saúde circulando em grande escala, publicidade disfarçada de conteúdo, influenciadores fazendo recomendações, produtos sendo vendidos diretamente pelas plataformas e milhões de pessoas usando essas mesmas plataformas para tomar decisões sobre a própria saúde”, pontuou.

Na avaliação apresentada durante a palestra, esse conjunto de fatores faz com que a desinformação ultrapasse a dimensão individual. “É nesse ponto que o problema deixa de ser apenas uma questão de desinformação. Ele passa a ser também uma questão de mercado, de tecnologia e, principalmente, de saúde pública”, afirmou.

A palestra também abordou o impacto da inteligência artificial na produção e disseminação de conteúdos falsos. Mari explicou que a tecnologia tornou ainda mais simples a criação de materiais capazes de parecer reais, incluindo imagens, vídeos, vozes e personagens fictícios apresentados como especialistas.

“Hoje nós temos também a inteligência artificial criando todo tipo de desinformação possível. Desde um vídeo absurdo, como um gafanhoto tocando um instrumento, até informações aparentemente sérias, apresentadas por um suposto profissional que, na verdade, nem existe”, exemplificou.

Segundo ela, a tecnologia permite que perfis aparentemente legítimos sejam criados artificialmente. “Hoje nós temos perfis de gurus, médicos, nutricionistas, professores e todo tipo de especialista que parecem reais, mas que podem ser completamente artificiais: uma imagem, uma voz ou até uma pessoa inteira criada por inteligência artificial”, disse.

Mari também questionou a ideia de que apenas pessoas com pouca informação são suscetíveis a acreditar em conteúdos falsos. “Às vezes, a gente pensa que quem acredita em fake news é uma pessoa sem estudo, alguém muito desatento, alguém que não teve acesso à informação. Mas a verdade é outra: todos somos suscetíveis a acreditar em uma notícia falsa”, afirmou.

Por que acreditamos em uma informação falsa?

Para explicar por que a desinformação pode ser convincente, a divulgadora científica apresentou alguns dos mecanismos que favorecem a aceitação de conteúdos falsos, entre eles a repetição. “Uma das formas mais eficientes pelas quais uma informação falsa chega até nós é pela repetição. A gente vê aquela informação nas redes sociais. Depois recebe no grupo da família. Um amigo manda. Aparece em um vídeo. Alguém comenta sobre aquilo no trabalho”, explicou.

Outro mecanismo apresentado foi a tendência de dar maior crédito a informações que confirmam crenças preexistentes. “Quando a informação confirma aquilo que eu já acreditava, ou aquilo que eu queria acreditar, a nossa postura pode mudar. Às vezes, um print malfeito, recebido no WhatsApp, já parece suficiente para confirmar uma crença que nós já tínhamos”, afirmou.

A emoção também ocupa um papel central nesse processo. Mari explicou que conteúdos falsos frequentemente exploram sentimentos como medo, ansiedade, indignação e esperança. “Fake news costuma trabalhar muito bem com medo, pavor, indignação, esperança e ansiedade. Ela pode assustar você com uma informação ou oferecer uma solução para algo que você está desesperado para resolver”, disse.

Como exemplo, ela citou situações envolvendo doenças e promessas de tratamentos milagrosos. “Quando uma informação mexe muito com a nossa emoção, fica mais difícil parar e questionar: ‘Mas será que isso é verdade?’. A emoção acelera a nossa reação. A razão exige que a gente pare, investigue e questione”, explicou.

A confiança nas pessoas que compartilham determinada informação também pode interferir na forma como ela é recebida. “Se uma notícia vem de alguém em quem eu confio, um professor, um colega de trabalho, um amigo ou alguém da minha família, eu naturalmente tenho menos motivos para desconfiar”, observou.

Para Mari, entretanto, confiar em quem compartilha uma informação não significa que ela seja verdadeira. “Existe uma diferença importante entre confiar em uma pessoa e verificar uma informação. Uma pessoa pode ser extremamente confiável e, ainda assim, compartilhar uma informação falsa sem saber que ela é falsa”, afirmou.

Por isso, a palestrante defendeu a adoção de procedimentos simples de verificação antes de acreditar ou compartilhar conteúdos. “A questão não é simplesmente descobrir quem acredita ou quem não acredita em fake news. A questão é entender por que determinadas informações conseguem convencer a gente”, explicou.

Mari também chamou atenção para a velocidade com que as informações são consumidas nas redes sociais. “Nas redes sociais, tudo passa muito rápido. A gente está o tempo inteiro absorvendo novas informações, e são muitas informações por minuto. É muito difícil que a gente pare diante de um conteúdo específico, analise, questione, procure a fonte e tente entender se aquilo realmente faz sentido”, afirmou.

Para a divulgadora científica, existe ainda uma diferença importante entre a produção de desinformação e a produção de conteúdo baseado em evidências. “Desinformar dá menos trabalho do que informar e corrigir. Eu costumo dizer que a disputa por audiência nas redes sociais, quando a gente fala de desinformação e conhecimento, é uma disputa muito injusta”, afirmou.

Segundo Mari, enquanto um conteúdo falso pode ser produzido rapidamente, materiais comprometidos com a qualidade da informação demandam pesquisa e checagem. “Colocar na internet uma informação que não tem pesquisa, fonte ou apuração por trás é extremamente fácil. Enquanto isso, o conteúdo que traz informação de qualidade exige pesquisa, checagem, fontes, contexto e responsabilidade”, explicou.

A inteligência artificial, segundo Mari, acentua essa diferença. “Hoje em dia, basta escrever um prompt em uma inteligência artificial para gerar um vídeo, um carrossel, uma imagem, uma narração… enfim, um conteúdo inteiro”, observou.

Influência digital e promessas milagrosas

A relação entre influência digital e desinformação também foi discutida durante a palestra. Mari ressaltou que o alcance dos criadores de conteúdo pode contribuir para ampliar tanto informações de qualidade quanto conteúdos sem comprovação. “Os influenciadores, ou, em alguns casos, os desinfluenciadores, são combustível para a desinformação. Porque eles têm alcance. E, literalmente, influenciar outras pessoas faz parte do trabalho deles”, afirmou.

A divulgadora científica fez, porém, uma ressalva de que a atuação dos influenciadores não deve ser generalizada. “Não porque todo influenciador produza desinformação, longe disso. Existem muitos criadores que fazem justamente o contrário e usam seu alcance para divulgar informação de qualidade”, ponderou.

O problema, segundo ela, está na combinação entre alcance, baixa responsabilidade, publicidade e mecanismos de engajamento. “Quando uma informação errada é colocada em um perfil com milhões de seguidores, ela não chega a poucas pessoas. Ela pode ser reproduzida, compartilhada e multiplicada em uma velocidade gigantesca”, destacou.

Ao abordar produtos que prometem transformações rápidas no corpo, Mari questionou a ideia de que resultados apresentados nas redes sociais possam ser atribuídos exclusivamente a um suplemento, alimento ou produto. “O problema é fazer parecer que tudo aquilo cabe dentro de um potinho de suplemento ou de uma gominha. Porque não cabe”, afirmou.

Ela explicou que, por trás de imagens de corpos e rotinas idealizadas, podem existir diversos fatores que não aparecem nas publicações. “Por trás daquele resultado, muitas vezes existe acesso aos melhores profissionais que o dinheiro pode proporcionar: nutricionista, personal trainer, dermatologista, médicos, tratamentos estéticos, uma alimentação planejada, uma rotina de exercícios e toda uma estrutura que a maioria das pessoas não tem”, observou.

A reflexão final da palestra foi direcionada à necessidade de questionar promessas de resultados fáceis, rápidos e milagrosos. “O que a gente precisa questionar é justamente essa promessa de resultado fácil, rápido e milagroso. A vida real não funciona assim, e vender essa ilusão como se fosse realidade pode fazer muita gente gastar dinheiro, se frustrar e, em alguns casos, até colocar a própria saúde em risco”, concluiu.

Programação segue até quinta-feira

O Novo Hamburgo Feevale Summit 2026 segue até quinta-feira, 17, no Câmpus II da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. Com o mote “Onde a inovação vira referência. Ideias, tecnologia e pessoas construindo o futuro”, a quarta edição reúne empresas, instituições, academia, estudantes e comunidade em uma programação voltada à inovação e ao empreendedorismo. Interessados em participar das atividades devem se inscrever pelo site nhfs.feevale.br.

A programação conta com dois palcos simultâneos, Conexões 360 e Negócios Conscientes Inspiram, reunindo mais de 100 speakers e conteúdos relacionados a saúde, indústria e economia criativa, tecnologia e indústria 4.0, educação e futuro do trabalho. Também fazem parte do evento a Vila de Startups, Rodada de Negócios, Be International, desafio Postgraduate, Open Labs e Open City, além da Vila Gastronômica e de apresentações culturais.
O Novo Hamburgo Feevale Summit é realizado pela Universidade Feevale, com correalização de Feevale Techpark, Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo e Sicredi Pioneira e apoio máster de Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RS).

Conta, ainda, com os seguintes apoiadores: Amizade FM, ARP, Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Azzas 2154, BCS Eventos, Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Cappra Institute, Cigam by Senior, Comusa, Dem-Bas Embalagens, D’Mamãe, Fenac Experiências Conectam, Fora, Hotel Swan Novo Hamburgo, InBetta, Office Shop, RecStream, Reverse, Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest-Senat), Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico e Eletrônico de São Leopoldo (Sindimetal), Sindilojas Vale Germânico, Sindimetal RS, Take Films, Techdec Informática, Unimed e Vipal Borrachas.

Foto: Andrieli Siqueira/Divulgação | Fonte: Assessoria

 

Publicidade

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.