Fórum debate inclusão de deficientes no mercado de trabalho

Por Marina Klein Telles

Derrubar barreiras para possibilitar o ingresso de pessoas com deficiência no mercado de trabalho e assegurar a sua permanência. Esse foi o mote do 1º Fórum Municipal de Empregabilidade da Pessoa com Deficiência de Santa Cruz do Sul, que reuniu na manhã de quinta-feira (25), na Câmara de Vereadores, representantes de entidades assistenciais do município, alunos e professores de escolas públicas, conselhos municipais, órgãos governamentais, empresas, vereadores, imprensa e comunidade.

Idealizado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Compede) e realizado através da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, em parceria com o Sine/FGTAS RS, o fórum foi criado para sensibilizar a classe empresarial. O objetivo é incentivar as empresas para que abram suas portas a pessoas com deficiência, dando a elas chances reais para desenvolverem suas potencialidades.

Na cerimônia de abertura, o diretor do Departamento de Diversidade e Inclusão da Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Inclusão, Moisés Bauer, militante e ativista na luta pelos direitos das pessoas com deficiência, reconheceu a importância do debate. “O mais moderno conceito de deficiência está na Constituição Federal que diz que a deficiência não está apenas nas pessoas, mas está na sociedade, nos ambientes e nos serviços que muitas vezes nos apresentam barreiras que impedem a nossa plena participação. O debate hoje está voltado muito mais para olharmos para essas barreiras do que para as limitações de visão, audição, mobilidade”, observou.

Bauer, que é totalmente cego e teve a mão esquerda amputada, disse que é comum a preocupação com os obstáculos arquitetônicos, mas que há muitos outros a serem superados, como o da comunicação, da tecnologia, mas principalmente os atitudinais, que considera os mais difíceis de serem superados. “Para eliminarmos as barreiras atitudinais temos que combater o capacitismo que está para a pessoa com deficiência assim como o racismo está para os negros”, definiu.

Já o diretor-presidente da Fundação Gaúcha do Trabalho (FGTAS), José Scorsatto, afirmou que inclusão é palavra de ordem dentro da fundação e que a instituição vem executando um trabalho forte de aproximação com os gestores públicos e as empresas, no sentido de que as ações vão além do mero cumprimento da lei. “É uma mudança de mentalidade, é um processo lento, mas estamos tentando acelerar. Temos um trabalho muito forte dentro das empresas para que elas atendam a lei, deem oportunidades para as pessoas com deficiência, mas também para que deem a elas condições dignas de trabalho e outras garantias”.

Em sua manifestação a prefeita Helena Hermany apresentou um outro olhar sobre a questão. “Todas as pessoas têm deficiências, algumas visíveis, outras invisíveis. O que precisamos é colocar as pessoas nos lugares certos, onde possam expressar suas potencialidades, desenvolver suas habilidades. Quando a gente quer a gente promove a inclusão”, disse. Ela mencionou ainda criação do Selo Empresa Inclusiva para incentivar a classe empresarial a contratar pessoas com deficiência.

Após a abertura oficial, o fórum teve sequência com a palestra do auxiliar administrativo da FGTAS, Gilberto Pinto da Silva. Ele que é também tradutor em Libras e trabalha com foco na acessibilidade, contou que passou a entender as agruras de quem vive as barreiras impostas a quem tem algum tipo de deficiência, a partir da própria deficiência, que lhe reduziu a mobilidade.

Durante toda a manhã sua explanação foi direcionada aos profissionais que atuam no setor de RH das empresas. Ele foi enfático ao dizer que a sociedade são todas as pessoas e que o que falta agora, além de um olhar diferenciado para com quem tem alguma deficiência, é uma mudança de atitudes. “Não é mais olhar diferente, agora é olhar e agir diferente”, afirmou taxativo. Para ele acessibilidade e inclusão se resumem numa máxima: “Pela porta onde passa uma pessoa, passam todas”.

Para a presidente do Compede, Francine da Silva, o saldo do evento pode ser considerado altamente positivo. “Tivemos um número alto de inscrições, uma adesão acima do esperado, o que nos deixa muito felizes e nos permite pensar já em uma segunda edição, quem sabe com oficinas e oportunizando mais espaço para que as pessoas com deficiência possam se manifestar mais e esclarecer dúvidas”, disse ela.

Francine destacou ainda a participação de diversas empresas no evento, que aproveitaram a oportunidade para ofertar vagas de trabalho. Receberam currículos e fizeram contatos com candidatos as empresas UTC, Mor, Panvel Excelsior, Nevoeiro e Gam.

Com o apoio da família, o que é deficiência se torna desafio

O 1º Fórum Municipal de Empregabilidade da Pessoa com Deficiência, ao mesmo tempo em procurou despertar o empresariado para promover a inclusão através da oferta de vagas e de condições de trabalho, buscou também suscitar nas pessoas com deficiência o estímulo para que elas rompam barreiras, ingressem no mercado de trabalho e continuem se capacitando. Com apenas 16 anos, Dienifer Vitória da Cruz Schuck já é um exemplo de determinação e com o incentivo dos pais mostra que não está disposta a desistir diante de qualquer empecilho.

Dienifer é deficiente visual, fruto de uma gestação que precisou ser interrompida aos seis meses, quando a mãe teve pré-eclâmpsia. A menina nasceu com glaucoma, pesando apenas 600 gramas e precisou ficar internada durante três meses e 20 dias na UTI Neonatal. Após nove cirurgias – uma delas para a implantação de três válvulas no olho sem resultados – a adolescente perdeu totalmente a visão do olho direito e ficou com apenas 20 por cento no olho direito, porém com o recurso de uma lente tem esse percentual ampliado.

Como qualquer criança com deficiência, na escola passou por situações de vergonha, tristeza e constrangimento. “Quando comecei na escola eu ouvia os comentários e isso me fazia muito mal, eu ficava com raiva. Foi bem complicado, mas com o tempo foi passando e hoje sou grata aos meus pais que me deram força e me ajudaram a enfrentar”, contou.

Estudante da Escola Santa Cruz, única da rede estadual no município a oferecer uma sala com recursos para deficientes visuais no contraturno, ela seguiu em frente e aprendeu a lidar com as dificuldades. Hoje, cursando o segundo ano do ensino médio, ela tem planos de ir adiante. Agora seu próximo passo é ingressar no mercado de trabalho e garantir um lugar ao sol, como qualquer cidadão. “Espero muito conseguir um emprego, esse é meu objetivo”, disse. Sobre o fórum, acredita que é um importante passo para a transformação de mentalidade. “Espero que as coisas mudem porque o modo como somos tratados faz toda a diferença. Somos todos iguais”.

Orgulhoso, o pai, Edson Daniel, é só incentivo. “Ela não perdeu um ano na escola, mesmo com toda a dificuldade ela vai, ela se puxa, ela gosta, ela quer. E hoje ela quis muito estar aqui, quer ser útil, se inscrever e começar a trabalhar. E como família a gente tem que incentivar, dar aquele empurrãozinho”.

 Foto: Isadora Oliveira/divulgação | Fonte: Assessoria
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