Estudo aponta modelo para prever risco de depressão em adolescentes antes dos sintomas

Por Jonathan da Silva

Um estudo liderado pelo professor e doutor em psiquiatria Christian Kieling, head da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do Hospital Moinhos de Vento, identificou um modelo capaz de prever o risco de depressão em adolescentes antes do surgimento dos primeiros sintomas. A pesquisa, realizada em parceria com pesquisadores do Reino Unido e publicada na revista Molecular Psychiatry, acompanhou estudantes da rede pública de Porto Alegre durante três anos. O trabalho combina dados sociodemográficos, exames de sangue e neuroimagem para ampliar a capacidade de identificar jovens mais vulneráveis ao desenvolvimento da doença, com o objetivo de fortalecer estratégias de prevenção em saúde mental.

Os resultados mostraram que 44% dos adolescentes classificados como de alto risco pelos dois modelos avaliados desenvolveram depressão ao longo de três anos. Entre aqueles considerados de baixo risco em ambos os critérios, não houve registros da doença no mesmo período.

A pesquisa integra o consórcio internacional IDEA (Identifying Depression Early in Adolescence) e propõe uma abordagem diferente da tradicional, que normalmente identifica a depressão apenas quando os sintomas já estão presentes. “A depressão não surge de forma repentina. O que mostramos é que existem indicadores psicossociais e biológicos que permitem identificar uma vulnerabilidade maior ao desenvolvimento da doença”, afirma o professor e doutor em psiquiatria Christian Kieling.

Combinação de fatores

Segundo os pesquisadores, a capacidade de previsão aumenta quando são analisados em conjunto fatores relacionados ao contexto de vida dos adolescentes, como ambiente familiar e condições sociais, além de indicadores biológicos ligados à inflamação, alterações em substâncias que protegem o cérebro e maior sensibilidade a estímulos negativos em áreas cerebrais associadas às emoções. “Quando analisados em conjunto, esses fatores permitem uma compreensão mais ampla da saúde mental, ao conectar o funcionamento do cérebro, o sistema imunológico e o contexto de vida”, explica Christian Kieling.

Impacto para a saúde pública

De acordo com os pesquisadores, os resultados podem contribuir para a identificação precoce de adolescentes em situação de vulnerabilidade, reduzir os impactos da depressão entre jovens, melhorar a distribuição de recursos em saúde mental e fortalecer políticas de prevenção baseadas em evidências científicas.

A proposta prevê um modelo de triagem em etapas. Inicialmente, seriam utilizadas informações sociodemográficas de fácil obtenção. Em um segundo momento, adolescentes identificados como mais vulneráveis poderiam ser submetidos a exames complementares mais específicos. “Esse modelo abre caminho para uma mudança importante no cuidado em saúde mental: sair de uma abordagem reativa, focada no tratamento, para uma atuação preventiva, identificando quem precisa de atenção antes do adoecimento”, destaca Christian Kieling.

Foto: Ryanniel Masucol/Pexels/Reprodução | Fonte: Assessoria
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