O uso excessivo de telas, os impactos das canetas emagrecedoras na infância, a prevenção do VSR (Vírus Sincicial Respiratório) e a valorização da profissão do pediatra estiveram entre os destaques do último dia do XVIII Congresso Gaúcho de Atualização em Pediatria. A programação deste sábado, 23/05, no auditório do Barra Shopping Sul, em Porto Alegre, reuniu especialistas para discutir temas que atravessam a rotina dos consultórios, os desafios das famílias e a construção de um cuidado pediátrico cada vez mais atento às transformações da sociedade.
Pela manhã, o médico pediatra Juarez Cunha apresentou dados atualizados sobre o VSR e destacou a importância da vigilância para o acompanhamento dos casos.
“Vigilância, para nós, é fundamental. Temos que ter dados. Quando se tem dados, você tem um panorama”, pontuou.
Canetas emagrecedoras na infância
Um dos destaques foi a palestra com o médico endocrinologista pediatra Guilherme Guaragna Filho e a médica nutróloga Marcia Schneider, que abordaram o uso das chamadas canetas emagrecedoras na infância e na adolescência. Os especialistas destacaram que a medicação pode ter papel no tratamento da obesidade, mas deve estar associada à mudança de estilo de vida e ao acompanhamento médico.
“A medicação deve ser um empurrão. Já colocamos ela pensando em retirar. É um gatilho para a mudança. Nós buscamos dar esse empurrão e organizar a mudança de estilo de vida. A medicação uma hora vai ter que sair e o paciente precisa seguir com alimentação, atividade física e sono adequado”, afirmou Guilherme Guaragna Filho.
Marcia Schneider também chamou atenção para a forma como a obesidade é tratada socialmente.
“Precisamos entender que a pessoa não é obesa, ela está obesa”, destacou.
A nutróloga ainda apontou que o Rio Grande do Sul apresenta índices acima da média nacional de prevalência da obesidade e reforçou os desafios relacionados à alimentação.
“Hoje, o Brasil come mais, mas não come melhor. Cada vez mais, no supermercado, a gente percebe que comer saudável é caro. Dá trabalho”, completou.
Uso excessivo de telas e desenvolvimento infantil
Na sequência, os médicos Renato Santos Coelho, José Paulo Ferreira, Ricardo Sukiennik e Simone Sudbrack debateram um caso clínico e a interferência das telas no sistema neurológico das crianças. A discussão passou pelos impactos do uso persistente de dispositivos digitais no desenvolvimento infantil, especialmente em relação à fala, ao comportamento, à socialização e à avaliação de possíveis transtornos.
Renato Santos Coelho destacou que a dificuldade de fala tem sido uma das principais queixas levadas pelas famílias aos consultórios.
“Eles vão no Google e a ferramenta já dá o diagnóstico de autismo”, disse, ao chamar atenção para a necessidade de uma avaliação médica cuidadosa.
O painel também reforçou o papel central do pediatra na condução desses casos.
“O pediatra vê a criança em um recorte. Precisamos dos apoios, como psicólogos, para ajudar no diagnóstico”, pontuou Simone Sudbrack.
Ricardo Sukiennik defendeu que o consultório também deve ser um espaço de observação da criança.
“Precisamos voltar a ter brinquedos na nossa sala de exame. Ver as crianças brincarem, se brincam de maneira funcional. Isso é fundamental para diagnóstico de autismo”, afirmou.
Os especialistas ainda discutiram a necessidade de orientar as famílias sobre o uso inteligente das telas. José Paulo Ferreira alertou para o efeito dos algoritmos sobre as crianças.
“O algoritmo é um prato cheio para crianças. Ele inunda os neurotransmissores e a criança fica hipnotizada”, disse.
Renato Santos Coelho, por sua vez, destacou que a mudança precisa envolver também os adultos.
“Os pais também precisam sair das telas e ir curtir as crianças”, afirmou, reforçando que a rede de apoio é um fator de proteção no desenvolvimento infantil.
Valorização da profissão do pediatra
O turno da manhã foi encerrado com um painel sobre a importância de valorizar a profissão do pediatra, conduzido pelos médicos Felipe Lora e Tania Denise, com moderação de João Ronaldo Krauzer. A conversa abordou aspectos da carreira que nem sempre são discutidos durante a residência, ampliando a reflexão sobre os desafios, responsabilidades e aprendizados que fazem parte da prática pediátrica.
Na sequência, a miniconferência “Neonatologia Hot Topics” trouxe uma atualização objetiva sobre temas atuais e desafiadores no cuidado ao recém-nascido, com moderação de Carolina Mena e participação dos palestrantes Desiree de Freitas Valle Volkmer e Paulo de Jesus Hartmann Nader.
Quando chamar o especialista
A avaliação de episódios de convulsão na infância e na adolescência exige cautela, escuta qualificada e análise clínica criteriosa, destacou Sócrates Salvador. O especialista chamou atenção para a importância da anamnese detalhada e para o cuidado em não rotular, de forma precipitada, um quadro como epilepsia.
“É fundamental lembrar que a clínica sempre será soberana. A anamnese detalhada pode ser decisiva para diferenciar uma crise epiléptica de outras condições, evitando diagnósticos apressados e tratamentos desnecessários”, afirmou Sócrates Salvador.
Silvia Casonato destacou que o sopro cardíaco na infância deve ser avaliado conforme suas características, sintomas associados, exame físico e fatores de risco, como histórico familiar de morte súbita, síndromes genéticas e recém-nascidos de mães diabéticas. Ela alertou que sinais de insuficiência cardíaca podem ocorrer mesmo sem sopro e exigem investigação.
“O sopro nem sempre significa doença, mas sintomas, alterações no exame físico ou fatores de risco devem acender o alerta para avaliação cardiovascular”, afirmou Silvia Casonato.
Nutrição infantil
O último bloco da programação foi dedicado à nutrição infantil, com a mesa-redonda “Nutrição que transforma: do aleitamento à formação de hábitos”, moderada por João Paulo Weiand. O aleitamento materno foi apresentado por Leandro Meirelles Nunes como base da nutrição infantil não apenas pelo valor nutricional, mas também pelo papel imunológico e na formação do microbioma do bebê.
“Amamentar requer muita disponibilidade física, mental, temporal e afetiva. Por isso, a regra de ouro é elogiar a mãe sempre”, destacou Leandro Meirelles Nunes.
Na sequência, foram abordados critérios para indicação e escolha de fórmulas infantis, com José Vicente Noronha Spolidoro, e a introdução alimentar como etapa fundamental para a construção de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida, com Maíra Lucília Monteiro Ferreira.
O XVIII Congresso Gaúcho de Atualização em Pediatria encerrou sua 18ª edição reforçando a importância da atualização científica, da escuta qualificada e do cuidado integral com crianças e adolescentes.


