Pesquisa coordenada pela professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Guendalina Turcato Oliveira, avaliou os efeitos de uma formulação comercial de herbicida à base de glifosato em girinos da espécie Boana faber, conhecida como sapo-martelo. O estudo foi realizado em condições controladas de laboratório e faz parte das pesquisas desenvolvidas pela universidade na área de Fisiologia da Conservação. A investigação foi orientada pela docente no Programa de Pós-Graduação do Mestrado Acadêmico em Ecologia e Evolução da Biodiversidade e busca ampliar o conhecimento sobre os impactos de contaminantes associados às atividades humanas sobre anfíbios, utilizados como bioindicadores de qualidade ambiental.
A pesquisa foi desenvolvida no contexto das atividades realizadas pela PUCRS no Centro de Conservação Pró Mata, em São Francisco de Paula, onde a professora Guendalina Turcato Oliveira desenvolve pesquisas desde 2006. Segundo a docente, estudos sobre conservação e uso sustentável dos recursos naturais são necessários para ampliar a conscientização da sociedade sobre os efeitos das atividades humanas no meio ambiente.
Impactos sobre anfíbios
De acordo com a pesquisadora, atividades humanas, de forma direta ou indireta, fizeram com que 41% das espécies de anfíbios do planeta estejam sujeitas a algum grau de ameaça de extinção. Entre os fatores relacionados estão a fragmentação e a degradação de habitats, principalmente para fins agrícolas, além da exposição a contaminantes derivados dessas atividades.
Os anfíbios apresentam características que os tornam suscetíveis a alterações ambientais, pois vivem tanto em ambientes aquáticos quanto terrestres. A espécie Boana faber, analisada no estudo, é um anuro da família Hylidae que habita áreas de floresta próximas a riachos e banhados, principalmente na Mata Atlântica. Os machos constroem ninhos e emitem vocalizações para atrair as fêmeas. “O Brasil é o país mais diverso neste grupo, o de anfíbios, e nas últimas décadas tem se constatado que este grupo passa por um processo de extinção em massa, justamente o grupo que tem uma relevância ecológica muito grande”, conta a professora.
Resultados da pesquisa
O estudo avaliou os efeitos de diferentes níveis de exposição à formulação comercial de herbicida à base de glifosato sobre o balanço oxidativo, o metabolismo e os índices de condição corporal dos girinos. A metodologia também considera esses organismos como bioindicadores para análises de qualidade ambiental e monitoramento. “O conjunto de biomarcadores analisados mostrou que esse herbicida pode causar alterações nas defesas antioxidantes, no metabolismo e, consequentemente, nos parâmetros de condição corporal de girinos, o que pode comprometer o tempo de desenvolvimento da espécie e, possivelmente a sua aptidão”, completa a professora e pesquisadora.
Segundo Guendalina, a baixa mortalidade observada entre os animais durante o cultivo em laboratório reforça a possibilidade de utilização dos anfíbios como indicadores da qualidade ambiental do bioma. Devido à sensibilidade a alterações nos ecossistemas, esses animais podem ser utilizados para identificar mudanças nas condições ambientais.
Novos estudos
A pesquisa orientada por Guendalina integra um conjunto de investigações sobre os efeitos de herbicidas em organismos vivos. Outros estudos estão sendo desenvolvidos com diferentes herbicidas e com misturas desses produtos com glifosato.
A docente atua na área de Fisiologia da Conservação, com ênfase em Metabolismo e Endocrinologia. Entre os temas de pesquisa estão metabolismo energético, estresse oxidativo, variações sazonais, cultivo experimental, toxicologia, dietas e estresse, com estudos envolvendo crustáceos, insetos, peixes, anfíbios e répteis.
Guendalina também coordena o Laboratório de Fisiologia da Conservação, onde são desenvolvidas pesquisas relacionadas à área. “As pesquisas permitem que possamos nos aprofundar neste tema sobre herbicidas e sua ação em organismos vivos. Precisamos valorar aquilo que a ciência está nos dando como resultado para uma produção mais limpa de alimentos, para um melhor uso da terra e uma melhor relação do ser humano com o meio ambiente. A ciência tem que ser ouvida pela sociedade, existem contribuições reais”, conclui a professora.


