Congresso em Porto Alegre debate uso de dados na agricultura de precisão

Por Jonathan da Silva

O 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e a 17ª International Conference on Precision Agriculture (ICPA) começaram nesta segunda-feira (13), no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre, com debates sobre o uso de tecnologias e dados no setor agrícola. A abertura dos eventos reuniu representantes da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (AsBraAP), da International Society of Precision Agriculture (ISPA), pesquisadores e especialistas do Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos para discutir avanços e desafios da agricultura de precisão, com destaque para a dificuldade de transformar informações coletadas no campo em decisões de manejo, principalmente em pequenas propriedades.

Durante a cerimônia de abertura, o presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (AsBraAP), Márcio Albuquerque, destacou que a realização da ICPA no Brasil representa a primeira edição da principal conferência mundial da área fora da América do Norte.

Segundo Albuquerque, a escolha de Porto Alegre para sediar o encontro possui um significado especial e ocorre em um ano em que a AsBraAP completa dez anos de atuação. O presidente afirmou que, ao longo desse período, a entidade tem conectado profissionais e contribuído para o desenvolvimento da agricultura de precisão no país.

O dirigente também ressaltou que o congresso foi estruturado como um espaço para troca de experiências, apresentação de desafios e demonstração da evolução tecnológica do setor.

O presidente da International Society of Precision Agriculture (ISPA), Steve Phillips, afirmou que a realização da conferência em outro continente era um objetivo discutido há anos pela organização. Segundo ele, a decisão de internacionalizar o evento foi tomada há cerca de dois anos e contou com a parceria da AsBraAP e de outras instituições envolvidas na organização.

Phillips também destacou mudanças na estrutura da ISPA, com a criação de cargos de liderança e representações regionais. De acordo com o dirigente, a diretoria da entidade passou a contar com representantes de todos os continentes, ampliando em 25% a representatividade global da organização. “Esse avanço reflete não apenas o crescimento do número de associados, mas também o maior engajamento da comunidade científica, a participação dos membros e a qualidade das contribuições técnicas voltadas ao desenvolvimento da agricultura de precisão”, ressaltou Phillips.

Agricultura brasileira

Em sua palestra, o presidente da AsBraAP, Márcio Albuquerque, apresentou um panorama da evolução da agricultura brasileira e destacou a transformação do país, que deixou de ser importador de alimentos até meados da década de 1960 para ampliar sua produção a partir do avanço da pesquisa agropecuária e da criação de instituições como a Embrapa nos anos 1970.

Albuquerque também citou o Rio Grande do Sul entre os estados que passaram a adotar tecnologias na produção agrícola, posteriormente ampliadas para outras regiões brasileiras. “Cada vez mais, a agricultura de precisão e digital vem se inserindo nesse processo a partir da integração entre produtores rurais, pesquisadores, empresas e entidades governamentais”, destacou o presidente da AsBraAP.

Pesquisa aponta adoção de tecnologias no campo

O professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), José Paulo Molin, apresentou dados sobre o cenário da agricultura de precisão na América Latina e pesquisas relacionadas ao uso dessas tecnologias no Brasil.

O levantamento, realizado por uma empresa privada com apoio da AsBraAP, analisou o uso de tecnologias de precisão no preparo do solo e em cultivos de cana-de-açúcar, soja e algodão. Segundo Molin, 86% dos produtores consultados utilizam tecnologias de precisão na aplicação de calcário, enquanto o percentual é menor em aplicações de agroquímicos.

O professor também destacou a dependência brasileira de fertilizantes importados, como fósforo, potássio e nitrogênio, e afirmou que o cenário exige maior eficiência no uso dos insumos agrícolas. “Somos altamente dependentes de fertilizantes. Este seria o momento de fazer um bom uso desses produtos”, afirmou José Paulo Molin.

Pequenas propriedades

Durante a apresentação, Molin também abordou a realidade das cerca de 4 milhões de pequenas propriedades rurais existentes no Brasil. Segundo o especialista, há diferenças entre estabelecimentos que já adotaram algum nível de mecanização e aqueles que ainda não passaram por esse processo.

Como exemplo, o professor citou pequenas propriedades produtoras de café no interior de São Paulo, onde áreas diferentes do terreno ainda são tratadas de forma uniforme, sem considerar variações de produtividade ou necessidades específicas do solo. “Há um projeto de coleta de amostras para detectar se existe homogeneidade ou não nesses solos”, explicou Molin. Segundo ele, os dados são coletados desde 2020, mas ainda não são utilizados de forma adequada no gerenciamento das áreas.

Eles não estão acertando o alvo. Temos que falar sobre precisão, e agora”, declarou o professor Molin.

Programação internacional

A programação do primeiro dia também contou com o painel “Cenário atual da agricultura de precisão e digital na Europa”, apresentado pelo pesquisador italiano Davide Cammarano, que atua nas áreas de agricultura de precisão, agroecologia, modelagem de culturas e mudanças climáticas aplicadas à produção agrícola.

Outro painel abordou o cenário da agricultura de precisão e digital nos Estados Unidos. A apresentação foi conduzida pelo professor associado da Auburn University Simerjeet Virk, especialista em extensão rural, agricultura de precisão e sistemas de máquinas agrícolas.

Foto: Retratte Fotografia/Divulgação | Fonte: Assessoria
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