O avanço da indústria de semicondutores no Rio Grande do Sul não representa apenas uma oportunidade econômica. Para universidades, centros de pesquisa e programas de pós-graduação, o crescimento do setor abre caminho para uma nova fase de produção científica, inovação tecnológica e formação de talentos especializados.
Ao longo do SemiCon-LAC 2026, realizado no Tecnopuc – Parque Científico e Tecnológico da PUCRS, em Porto Alegre, especialistas destacaram que a construção de um ecossistema robusto de semicondutores depende diretamente da capacidade das universidades de formar profissionais, produzir conhecimento e transformar pesquisa em inovação aplicada. O fortalecimento da cadeia produtiva do setor tende a ampliar a geração de projetos científicos, aproximar academia e indústria e criar novas oportunidades para pesquisadores e estudantes.
Para a professora Fernanda Kastensmidt, da UFRGS, a formação de talentos precisa começar antes mesmo da entrada dos estudantes na universidade e avançar continuamente ao longo da carreira. “Precisamos despertar o interesse dos jovens desde cedo e criar trajetórias de formação que permitam aos estudantes atuar em pesquisa, desenvolvimento e empreendedorismo dentro da indústria de semicondutores”, afirmou.
A necessidade de fortalecer a formação especializada também foi destacada pelo professor Fernando Moraes, da Escola Politécnica da PUCRS. Em sua avaliação, cursos de curta duração cumprem um papel importante para introduzir estudantes às ferramentas utilizadas pela indústria, mas não resolvem desafios estruturais da formação. “O verdadeiro gargalo está na falta de programas sólidos de Engenharia de Computação e Engenharia Elétrica orientados ao desenvolvimento completo de circuitos integrados”, explicou.
Moraes destacou que a formação necessária para o setor vai além do domínio de ferramentas de projeto e envolve conhecimentos profundos em microeletrônica, sistemas digitais, eletrônica analógica, arquitetura de computadores e desenvolvimento de sistemas complexos. Outro desafio apontado pelo pesquisador é a dificuldade de dedicação integral à pesquisa em programas de pós-graduação. “Se queremos formar talentos para uma indústria altamente especializada, precisamos criar condições para que estudantes possam se dedicar integralmente à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico”, detalhou Moraes. Segundo o professor da PUCRS, o fortalecimento do setor exige políticas permanentes que integrem formação acadêmica, financiamento de pesquisa e mecanismos claros de transferência tecnológica para a indústria.
A perspectiva da inovação aplicada foi apresentada por Celso Peter, coordenador do Instituto Tecnológico de Semicondutores (itt Chip), da Unisinos. Para ele, a dinâmica global da indústria demonstra que a disponibilidade de mão de obra qualificada é um dos principais fatores que determinam a localização de novos investimentos. “A indústria de semicondutores migra para regiões capazes de oferecer talentos especializados e ambientes favoráveis à inovação”, destacou.
Peter também chamou atenção para as oportunidades que surgem em áreas de fronteira tecnológica, como encapsulamento avançado, eletrônica de potência, fotônica e computação quântica, segmentos que podem ampliar a participação da pesquisa brasileira na cadeia global de valor.
As transformações provocadas pelo avanço tecnológico e pela Inteligência Artificial também foram tema das discussões do evento. Para Jorge Audy, superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do Tecnopuc, as universidades vivem um processo permanente de adaptação para responder às mudanças da sociedade e do mercado. “O papel da universidade é formar profissionais, mas, sobretudo, formar cidadãos preparados para atuar em um mundo em constante transformação”, alertou.
Segundo Audy, a relação entre academia e setor produtivo precisa ser cada vez mais dinâmica para acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas. “Universidades e mercado estão constantemente alinhando expectativas para formar pessoas capazes de responder aos desafios de um cenário cada vez mais complexo”, completou.
Na avaliação de Adão Villaverde, professor da Escola Politécnica da PUCRS e co-chair do SemiCon-LAC 2026, o fortalecimento da indústria de semicondutores cria uma oportunidade histórica para ampliar a relevância científica e tecnológica do Rio Grande do Sul e do Brasil. “O desenvolvimento deste setor depende diretamente da articulação entre universidades, empresas, centros de pesquisa e governo. É essa integração que permitirá transformar conhecimento em inovação, negócios e desenvolvimento para toda a região”, ponderou.


