A poucos dias da entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), marcada para o dia 26 deste mês, o ambiente corporativo se prepara para uma virada de chave histórica. O que antes era tratado por muitas empresas como uma política opcional de bem-estar, agora passa a ser uma exigência legal: a gestão dos riscos psicossociais e o cuidado com a saúde mental dos trabalhadores.
Para debater esse novo cenário e orientar o empresariado regional, a Associação Comercial e Industrial (ACI) de Santa Cruz realizou, na manhã da terça-feira (19), uma imersão dedicada ao tema “NR-1, Legislação e Prática Real”. O evento uniu as áreas de desenvolvimento humano e relações de trabalho para discutir a conformidade jurídica e o manejo do capital humano.
Para uma plateia formada por empresários e colaboradores de empresas que lotaram auditório da entidade as palestrantes do encontro – a psicóloga Jamila Abdala e a advogada trabalhista Tatiane Schmitt — detalharam os desafios e o impacto prático da nova norma. Após as apresentações, as especialistas esclareceram as dúvidas dos participantes.
O alerta dos números
A urgência da nova legislação é respaldada por dados alarmantes do INSS e do Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo a psicóloga Jamila Abdala, o período pós-pandemia e a transição entre o trabalho remoto e o retorno presencial escancararam uma crise de saúde mental nas organizações, com destaque para quadros de ansiedade e depressão.
“Tivemos um aumento de 80% em afastamentos de trabalhadores em função da saúde emocional de 2023 para 2024. E, de 2024 para 2025, houve um novo incremento de mais de 16%”, revelou a psicóloga.
Jamila ressaltou que o ambiente laboral tem papel ativo nessa balança. “As pessoas, naturalmente, têm a possibilidade de estar ou não adoecidas, e o ambiente do trabalho pode ser um gerador de mais saúde ou de mais adoecimento”. Para a psicóloga, ao olhar para todo esse histórico de afastamentos, percebeu-se a necessidade urgente de mudar essa lógica e colocar os riscos psicossociais como prioridade.
O papel da liderança e o risco do descumprimento
Se a lei mudou, a cultura das empresas precisa acompanhar. O maior gargalo, segundo as especialistas, está na preparação das lideranças, que passam a ser as fiscalizadoras diretas do clima organizacional e da carga psíquica sobre os colaboradores.
A advogada trabalhista Tatiane Schmidt enfatizou que a conformidade com a NR-1 exige que os gestores assumam o papel de agentes de prevenção a danos psicológicos. No entanto, isso demanda capacitação real e uma mudança de mentalidade da alta diretoria.
“A NR-1 envolve muito a gestão. As lideranças têm que estar preparadas para lidar com isso, pois são elas que estarão à frente da aplicação da norma. É vital que as empresas entendam que isso não é um custo, mas sim um investimento”, pontuou a advogada.
Tatiane advertiu que não basta preencher requisitos no papel, as empresas precisam treinar ativamente seus líderes para identificar e mitigar os riscos. O descumprimento da norma pode resultar em passivos trabalhistas expressivos e sanções administrativas.
O que muda na prática a partir do dia 26
Com a atualização, os riscos psicossociais (como assédio, jornadas exaustivas, pressão desmedida e falta de suporte organizacional) devem ser integrados ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas, com o mesmo rigor dedicado aos riscos físicos, químicos ou biológicos.
Segundo as especialistas, a contagem regressiva para o dia 26 não é apenas para o ajuste de relatórios, mas para o início de uma nova era nas relações de trabalho, onde a mente do trabalhador é protegida por lei.


