As recentes tempestades registradas na Região Sul acenderam um alerta para os impactos da formação do fenômeno El Niño em 2026. Segundo o CEO da i4sea, Mateus Lima, a combinação entre anomalias climáticas no Oceano Pacífico e outros fenômenos atmosféricos deve aumentar significativamente o risco de eventos extremos no Sul do Brasil nos próximos meses, pressionando setores estratégicos da economia.
De acordo com o executivo, o instituto IRI/Columbia já aponta 98% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho de 2026, enquanto a temperatura do Pacífico apresenta anomalia de +0,9°C. Embora ele ressalte que episódios recentes de temporais, ventos acima de 117 km/h e possíveis tornados ainda precisem de estudos específicos para comprovar relação direta com o fenômeno, o cenário já indica maior suscetibilidade da região a chuvas torrenciais, vendavais e ciclones.
Entre os setores mais vulneráveis estão logística portuária, infraestrutura energética, indústria de manufatura e agronegócio. Segundo Lima, paralisações em portos, aeroportos e rodovias podem desencadear um efeito cascata em toda a cadeia produtiva nacional. “O Sul é hub de exportação e distribuição interna. Quando trava, trava o resto”, afirma.
O executivo lembra que, em 2024, 11 portos do Rio Grande do Sul interromperam operações durante eventos climáticos severos, enquanto o Aeroporto Salgado Filho ficou fechado por 12 dias. A consequência imediata, segundo ele, é o aumento expressivo do frete, atrasos logísticos e renegociação de contratos comerciais. “Cada dia de navio parado custa entre US$ 30 mil e US$ 50 mil apenas de afretamento. Isso vai para o frete, e o frete vai para a prateleira”, destaca.
No setor industrial, Lima alerta que muitas plantas operam com estruturas projetadas para um padrão climático ultrapassado. Ele cita o caso da fábrica da Toyota em Sorocaba como exemplo de vulnerabilidade estrutural diante de rajadas de vento cada vez mais intensas. “O ponto fraco da indústria brasileira não é construção. É calibração”, afirma.
Segundo ele, três pontos exigem auditoria urgente: sistemas de cobertura e fixação de telhados, drenagem de águas pluviais e redes de distribuição de energia. “As normas técnicas foram escritas para um clima que não existe mais”, observa.
Para minimizar perdas financeiras e operacionais, o CEO defende que as empresas avancem na adoção de inteligência climática aplicada ao negócio. Isso inclui monitoramento hiperlocal dos ativos, protocolos de contingência integrados às operações e análise de risco climático individualizada para contratação de seguros.
“Não basta gerar alerta. O dado climático precisa entrar nas decisões de negócio”, afirma. Segundo Lima, empresas que conseguem antecipar eventos extremos com sete a dez dias de antecedência têm mais capacidade de redirecionar cargas, contratar fretes antes da alta de preços e proteger contratos estratégicos.
O executivo também chama atenção para mudanças regulatórias que devem pressionar grandes corporações a incorporarem o risco climático em seus planejamentos financeiros e de governança. Ele cita a Resolução CVM 218, que obriga companhias abertas brasileiras a reportarem exposição climática por ativo a partir de 2026.
“Risco climático virou item de balanço, não item de ESG”, afirma. Para ele, empresas que continuarem baseando seus planejamentos apenas em médias históricas estarão mais expostas financeiramente. “Quem orça com cenário climático provisiona o que precisa. Quem não fizer isso vai pagar prêmio de risco para banco, seguradora e investidor”, conclui.


