O queijo artesanal gaúcho vive um momento de consolidação. Com produtos cada vez mais qualificados, reconhecimento em concursos nacionais e internacionais e produtores que transformaram tradições familiares em negócios estruturados, o setor chega à edição de 2026 do Concurso de Queijos e Doces de Leite Artesanais do Rio Grande do Sul celebrando não apenas sabores, mas também identidade, território e história.
Entre os dias 29 e 31 de maio, a Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, recebe mais uma edição do evento promovido pela Associação Gaúcha de Laticinistas e Laticínios Artesanais (AGL) e Sebrae RS, com apoio da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul (SDR) e de diversas entidades públicas e privadas. A programação reúne concurso técnico, seminário, oficinas de harmonização e feira aberta ao público com produtores de diferentes regiões do Estado.
Mais do que uma vitrine, o concurso se tornou, ao longo dos últimos anos, um dos principais motores de valorização do setor artesanal gaúcho. Para Aline Balbinoto, especialista de Leite e Derivados do Sebrae RS, o evento representa uma importante ferramenta de reconhecimento e evolução para os empreendedores. “Para um produtor artesanal, ter seu produto avaliado e premiado por um corpo de jurados técnicos é uma das principais validações do seu trabalho. O concurso acaba funcionando como um grande catalisador de todo o amadurecimento do setor”, contextualiza.
De acordo com a especialista, o avanço mais perceptível está na mudança de mentalidade dos produtores. “Hoje existe um olhar muito mais profissionalizado. Não é mais apenas produzir um bom queijo, mas dominar a técnica, estruturar o negócio, buscar mercado e construir identidade própria”, explica.
Essa evolução também é percebida por Danilo Cavalcanti Gomes, coordenador técnico do concurso e um dos idealizadores da iniciativa. Criado há cinco anos com o objetivo de aproximar o queijo artesanal gaúcho do público da capital e abrir espaço para discussões técnicas sobre o setor, o evento cresceu junto com os produtores. “Talvez a principal transformação tenha sido fortalecer a autoestima dos nossos produtores e potencializar uma identidade queijeira no Estado, que antes ainda era muito tímida”, destaca.
Gomes lembra que, desde as primeiras edições, o concurso apostou em trazer jurados de diferentes estados e países, contribuindo diretamente para a evolução técnica dos produtos. Ele conta que “mais importante que a medalha é o retorno técnico que o produtor recebe. Isso ajuda a validar caminhos, corrigir processos e evoluir continuamente”.
Hoje, o crescimento do concurso também acompanha o interesse crescente do público pelos produtos artesanais gaúchos. “A cada edição, muitos consumidores descobrem que existem queijos e doces de leite no Rio Grande do Sul com qualidade e diversidade que eles sequer imaginavam. Além dos produtos, existem histórias e territórios muito fortes por trás de cada queijo”, completa o coordenador.
Da tradição familiar ao reconhecimento nacional
A trajetória da Queijaria Pelizzari, de Bom Jesus, nos Campos de Cima da Serra, ajuda a traduzir esse movimento de valorização do queijo artesanal gaúcho. Produtora de Queijo Artesanal Serrano, a família viu a rotina construída ao longo de gerações ganhar reconhecimento após a participação no concurso. “O primeiro concurso marcou a nossa trajetória. Foi onde o nosso queijo foi reconhecido”, conta Elaine de Fátima Cardoso Pelizzari, que divide a produção com o marido, Celso Castilhos Pelizzari. Segundo ela, o impacto foi imediato: aumento nas vendas, mais confiança para seguir produzindo e a percepção do valor do próprio produto.
A tradição familiar segue viva diariamente na propriedade. “Há muito amor ao fazer os queijos e muito carinho com as vacas. É um aprendizado que herdei das minhas avós, passou para minha mãe e hoje seguimos com esse saber fazer”, relata.
Em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha, outra história ajuda a mostrar o avanço do setor. A Queijaria Beija-Flor, conduzida por Gabriel Lorenzon e pela família, vem acumulando premiações regionais e nacionais com o queijo colonial artesanal. Em 2025, a queijaria conquistou o segundo lugar nacional em um concurso promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), além de outras premiações em eventos estaduais e nacionais.
Para o produtor, os concursos ajudaram a ampliar a visibilidade da marca familiar, criada originalmente em 1927 pelo bisavô da família e retomada pelos pais em 2007: “Foi um start para a gente escalar e ser mais conhecido. Antes éramos muito regionais. Hoje percebemos que nosso trabalho alcançou outros espaços”.
Além da valorização comercial, Lorenzon destaca o fortalecimento da confiança no próprio trabalho. “Os concursos agregam produção, confiabilidade e autoestima. Ver que existem pessoas olhando para nós e valorizando esse trabalho artesanal é muito importante”, diz.
A expectativa de quem participa pela primeira vez
Entre os estreantes desta edição está a empresa Madre Pecora, de Itapuã, em Viamão. Produzindo oficialmente desde março deste ano, a agroindústria familiar nasceu a partir de receitas desenvolvidas inicialmente para consumo próprio. O retorno positivo de amigos e familiares incentivou o casal Bruna Favieiro Pellin de Molnar e Fernando Magalhães de Souza a transformar a produção em negócio.
Com referência no tradicional Pecorino Toscano, o queijo de leite de ovelha produzido pela família prioriza processos naturais, sem conservantes ou aditivos químicos. “Desde o início, a ideia sempre foi participar do concurso. É uma oportunidade de mostrar nossos produtos e também aprender com os jurados”, conta Bruna.
Na rotina da propriedade, Souza é responsável pelo manejo do rebanho e pela ordenha, enquanto Bruna conduz a produção na agroindústria, onde desenvolve receitas autorais adaptadas à realidade gaúcha. Nesta edição, a queijaria levará para avaliação um queijo maturado de leite de ovelha e um doce de leite artesanal. Bruna destaca: “mesmo produzindo há pouco tempo, é impossível não sonhar com uma medalha”.
Queijo gaúcho ganha identidade própria
Além do fortalecimento dos negócios, o setor gaúcho também vem construindo uma identidade própria no cenário nacional. Para Aline Balbinoto, o crescimento do queijo artesanal do Rio Grande do Sul não acontece como uma disputa direta com tradições já consolidadas, como a mineira, mas pela valorização das características locais e pela diversidade de terroirs e produções.
“O queijo gaúcho está conquistando espaço ao mostrar que o Brasil é plural em sabores e tradições. Não se trata de competir com outros estados, mas de construir uma identidade própria, baseada em qualidade, diferenciação e território”, destaca.
A especialista afirma que o Sebrae RS vem atuando justamente para fortalecer esse processo de qualificação integral dos empreendedores, conectando o saber fazer artesanal à gestão de negócios, acesso a mercados, participação em feiras e rodadas comerciais. A entidade também apoia a presença de produtores gaúchos em eventos nacionais, aproximando os empreendimentos de chefs, compradores e consumidores de todo o país.
A agenda do concurso inclui avaliação técnica dos produtos, seminário especializado e oficinas de harmonização com queijos, vinhos, cervejas e cafés. As atividades acontecem durante o período da Feira das Queijarias, que também contará com oficinas de harmonização, workshops, mesas-redondas e o Seminário Latino-Americano de Lácteos Artesanais. A expectativa é reunir produtores, especialistas e consumidores em uma celebração que, a cada edição, ajuda a consolidar o queijo artesanal gaúcho como um dos protagonistas da gastronomia brasileira.
Serviço
Concurso de Queijos e Doces de Leite Artesanais do RS
Entrada gratuita
Produtos podem ser degustados e comprados
Data: 29, 30 e 31 de maio
Locais: Casa de Cultura Mario Quintana – Porto Alegre
Oficinas de harmonização: vagas limitadas
Horário de funcionamento:
Sexta-feira, 29: das 12:00 às 18:00
Sábado, 30: das 10:00 às 18:30
Domingo, 31: das 10:00 às 18:30


