Trabalhadores da indústria entram no debate da Conicq e estabelecem canal de diálogo com o governo

Por Marina Klein Telles

A Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias do Tabaco e Afins (Fentitabaco) participou nesta semana de uma agenda considerada histórica na sede da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em Brasília, durante reunião vinculada à Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq). Embora a comissão seja composta exclusivamente por órgãos do governo federal, o encontro abriu espaço para ouvir representantes da cadeia produtiva, permitindo que trabalhadores apresentassem suas trajetórias e a realidade social e econômica associada à produção de tabaco no Brasil.

A delegação da Fentitabaco foi formada pelo presidente da entidade, Rangel Marcon, pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação de Santa Cruz do Sul e Região (Stifa), Éder Rodrigues, além dos trabalhadores Camili Aparecida Rodrigues do Prado, do Rio Grande do Sul, e Jorge Jorge Neto, do Paraná. Durante a reunião, os representantes compartilharam experiências que evidenciam a dimensão social da atividade e a presença da cadeia produtiva em diferentes regiões do país.

Camili relatou que sua ligação com o tabaco atravessa gerações familiares e que foi a renda da produção que permitiu acesso à educação e oportunidades profissionais. Filha e neta de produtores, afirmou que a atividade representa mais do que uma fonte de renda para muitas famílias do meio rural. “A renda do tabaco sempre fez parte da nossa história. Foi ela que permitiu estudar, construir uma profissão e permanecer no campo com dignidade”, afirma. O trabalhador da indústria Jorge Jorge Neto destacou que a atividade sustenta milhares de trabalhadores e municípios inteiros. “Quando se discute o futuro do tabaco, não estamos falando apenas de um produto. Estamos falando de empregos, de famílias e de regiões que dependem dessa atividade”, afirma.

Entre os integrantes da comissão, o representante do Ministério da Agricultura, Gustavo Henrique Marquim Firmo de Araújo, destacou o significado da presença dos trabalhadores na reunião. Para ele, o encontro marca um momento importante na trajetória da comissão ao abrir espaço para ouvir diretamente quem vive da cadeia produtiva. “Este é um dia histórico na Conicq, porque até então os trabalhadores não haviam participado de uma audiência da comissão. A presença de vocês aqui amplia o diálogo e contribui para que possamos compreender melhor as diferentes realidades envolvidas nesse processo”, afirma.

A secretária executiva da Conicq, Vera Luiza da Costa e Silva, ressaltou que o espaço de escuta integra o compromisso institucional previsto no tratado internacional e que o diálogo com os setores envolvidos faz parte do processo de construção das políticas públicas relacionadas ao tema. “O tratado também considera os aspectos sociais relacionados ao trabalho e à produção. Por isso esses momentos de escuta são importantes para compreender diferentes realidades”, afirma. Ao encerrar sua manifestação, dirigiu-se aos trabalhadores com um gesto simbólico de acolhimento e concluiu com a expressão “até a próxima”, sinalizando que a participação da cadeia produtiva é bem-vinda no processo de diálogo.

“Nada sobre nós, sem nós”

O presidente da Fentitabaco, Rangel Marcon, afirmou que a participação dos trabalhadores em espaços de debate sobre políticas públicas é fundamental para que decisões considerem a realidade social e econômica do setor. Ele destacou que a cadeia produtiva do tabaco envolve aproximadamente 1,6 milhão de brasileiros entre empregos diretos, indiretos e induzidos, além de gerar cerca de R$ 30 bilhões anuais em impacto fiscal para União, estados e municípios.

Marcon defendeu que o debate sobre o setor precisa incluir aqueles que vivem diretamente dessa atividade. “Nada de nós, sobre nós. Quando se discutem políticas públicas que afetam trabalhadores e suas famílias, é fundamental que essas pessoas também sejam ouvidas”, afirma.

O dirigente avaliou que a reunião foi produtiva e abriu um canal de diálogo importante com a Conicq. Segundo ele, a federação permanece à disposição para contribuir com informações e para receber representantes das instituições públicas nas regiões produtoras, ampliando a compreensão sobre a realidade social da cadeia produtiva.

Representação sindical

A agenda com a série de visitas institucionais foi programada junto com lideranças dos cinco sindicatos representados pela Fentitabaco. Participaram desta construção o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo do Alto Vale do Itajaí, Planalto Norte e Oeste Catarinense (Sintifavi); o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo da Região Sul de SC (Sitifursc); o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo de Uberlândia (Sintraf); o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo de Rio Negro, no Paraná (Sitifumo) e o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação de Santa Cruz do Sul e Região (Stifa). O convite para a representação foi aberto e acolhido pela direção do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação de Santa Cruz do Sul e Região (Stifa), que dentro da federação é o maior sindicato em número de trabalhadores representados, alcançando a marca de 15 mil trabalhadores do setor vinculado, especialmente em períodos de safra.

Para o presidente do Stifa, Éder Rodrigues, a presença junto à delegação reforça a importância da organização sindical na defesa dos trabalhadores da indústria do tabaco. Segundo ele, não somente dentro do grupo que representa os trabalhadores na indústria do tabaco, o Stifa é uma das maiores e mais representativas entidades, que diariamente oferta serviços nas áreas médicas, odontológica, jurídica e de bem-estar ao trabalhador.

Rodrigues afirma que a cadeia produtiva do tabaco representa emprego formal, renda estável e organização social consolidada em diversas regiões produtoras. “A abertura desse diálogo em Brasília representa um avanço importante para que trabalhadores participem das discussões que impactam diretamente o futuro da atividade. E para nós, do Stifa, assim como os demais sindicatos, torna-se fundamental acompanhar de perto toda esta mobilização pró-trabalhador”, complementa.

Foto: Divulgação | Fonte: Assessoria
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