Estudo do Hospital Moinhos de Vento usa IA para prever risco de AVC

Por Jonathan da Silva

Um estudo iniciado em janeiro de 2025 no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, usa inteligência artificial e angiotomografia computadorizada para identificar placas de gordura nas artérias carótidas com maior risco de se romper e causar acidente vascular cerebral. A iniciativa tem o objetivo de aprimorar a prevenção e orientar decisões de tratamento em pacientes com suspeita de AVC.

A pesquisa utiliza imagens de angiotomografia reprocessadas por um módulo de software chamado CT Plaque Analysis, que avalia a composição das placas nas carótidas do pescoço, diferenciando gordura, tecido fibroso e cálcio. Até então, o risco era medido principalmente pelo grau de estreitamento da artéria, e agora passa a considerar a composição da placa, se ela é mais rica em gordura ou em tecido fibroso ou cálcio.

Como funciona a pesquisa

O projeto prevê a análise de cerca de 100 pacientes que realizaram angiotomografia por suspeita de AVC. Além da composição das placas, os pesquisadores avaliam a relação entre o volume de gordura e o de tecido fibroso para criar um índice de vulnerabilidade que pode prever o risco de embolização cerebral. Os resultados finais devem ser apresentados no primeiro semestre de 2026.

Uso da IA nos procedimentos

Durante a pesquisa, pela primeira vez, a imagem gerada por inteligência artificial foi usada para escolher o tipo de stent implantado em um procedimento. Os achados foram confirmados em tempo real por ultrassom intravascular, exame realizado dentro da artéria. “Nem sempre a artéria mais estreita é a mais perigosa. Às vezes, uma placa menor, mas instável, pode se romper e causar um AVC”, ressalta o cirurgião vascular Alexandre Araújo Pereira, idealizador do estudo.

Tecnologia utilizada

O software utilizado foi desenvolvido pela Siemens Healthineers e aplica algoritmos de IA para identificar automaticamente o tipo de tecido dentro da placa com base nos diferentes tons captados pela tomografia, gerando uma imagem colorida e tridimensional da artéria. As análises são realizadas pela residente em radiologia Gabriela Carboni e pelo chefe do Serviço de Radiologia do Hospital Moinhos de Vento, Henrique Guerra. O objetivo inicial do estudo é descrever as características das placas para que o protocolo possa ser usado futuramente na prática clínica.

Estudo piloto

Em um estudo piloto, os dados do software foram usados para escolher o tipo de stent para um paciente de 72 anos que havia sofrido um AVC recente. O algoritmo analisou características da placa para indicar o modelo mais adequado, e o ultrassom intravascular confirmou durante o procedimento a correspondência entre o que a IA identificou e o que estava na artéria.

Resultados preliminares

As análises iniciais indicam que placas com maior proporção de núcleo lipídico e superfície irregular estão associadas à instabilidade. O estudo busca transformar essas informações em ferramentas para orientar tanto a indicação do tratamento quanto a forma como ele será realizado. “É um passo além da previsão de risco. Agora conseguimos usar a própria imagem gerada pela IA para guiar a estratégia terapêutica, personalizando o tratamento para cada paciente”, destacou Alexandre Araújo Pereira. Segundo o coordenador do estudo, o uso combinado de IA e ultrassom intravascular pode resultar em menos complicações e tratamentos mais direcionados. “O uso combinado de IA e ultrassom intravascular representa um novo paradigma na medicina vascular, unindo diagnóstico avançado e personalização terapêutica em um mesmo fluxo de cuidado”, complementou Pereira. “Ao usarmos a inteligência artificial para entender melhor o comportamento das placas nas carótidas, que podem causar AVCs graves, conseguimos prever e evitar o acidente antes que ele aconteça. É um exemplo concreto de como a inovação pode transformar a prevenção e o tratamento”, pontuou a chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento, Sheila Martins.

Foto: Freepik/Reprodução | Fonte: Assessoria
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