A conferência que silencia o setor produtivo do tabaco

Por Marina Klein Telles

Hoje me reporto como prefeito, produtor de tabaco e representante dos prefeitos que defendem milhares de famílias que têm no tabaco o sustento de suas propriedades. Estar na COP-11, em Genebra, significa acompanhar o debate global sobre o setor, mas também enfrentar uma barreira crescente que reside na dificuldade de ouvir e, principalmente, ser ouvido. É possível perceber que, quando a realidade do campo incomoda, o diálogo passa a ser tratado como ameaça.

Em conferências anteriores, como a do Panamá, ainda no ano passado, existia pelo menos um espaço de conversa mediado pela embaixada brasileira. Era o chamado “debriefing”, momento em que as informações do dia eram compartilhadas com a comitiva do setor produtivo. Neste ano, esse canal simplesmente foi proibido, por orientação da Comissão Nacional Interministerial de Controle do Tabaco. Ou seja, o governo brasileiro determinou que os representantes da cadeia produtiva não deveriam ter acesso ao conteúdo da conferência. O silêncio passou a ser uma estratégia oficial.

Ainda assim insistimos. No primeiro momento, apenas prefeitos e parlamentares foram autorizados a entrar na embaixada. Depois de pressão, parte do setor produtivo e da imprensa pôde participar, sem autorização para gravações ou registros. A abertura torna-se limitada, mas significativa e escancara que a mobilização segue sendo a única forma de garantir algum nível de participação. Quando a institucionalidade fecha portas, é a presença que precisa abrir caminho.

A Anvisa, por sua vez, afirma que não há estudos conclusivos sobre os filtros de cigarro, mas na própria embaixada há material técnico que aponta o contrário. Se existem dados científicos e eles não são considerados, o debate deixa de ser técnico e passa a ser conduzido por interesses ideológicos. A ciência não pode ser usada como argumento apenas quando convém. Se há estudos, devem ser avaliados com transparência. Se são ignorados, há uma escolha política, e é sobre esse ponto que o setor produtivo precisa se posicionar.

A COP-11 reforça a necessidade de reação, de que o setor não pode mais esperar para ser ouvido. É preciso construir espaços próprios de debate, fortalecer a participação dos municípios e ampliar o envolvimento das lideranças locais. O tabaco não é um inimigo a ser combatido, mas uma realidade produtiva que garante renda, permanência das famílias no campo, tecnologia e desenvolvimento regional. Trata-se de uma cadeia legítima, regulada e responsável. Silenciá-la é negar parte importante da economia brasileira.

Não viemos à Suíça para confrontar, mas para contribuir, para construir em conjunto, mas isto só existe quando há diálogo. Se ele nos for negado fora do país, deverá, por direito, ser fortalecido dentro do Brasil. Nas prefeituras, nas entidades, nas comunidades rurais e onde a agricultura não é teoria, mas realidade diária. O setor produtivo do tabaco continuará presente, mesmo quando tentarem silenciá-lo. Porque ninguém entende melhor o campo do que quem planta, produz e vive dele.

Foto: Divulgação | Fonte: Assessoria
Publicidade

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.