O presidente da Fundacred, Nivio Lewis Delgado, publicou recentemente um artigo sobre os diferentes caminhos da educação e os desafios para garantir a permanência dos estudantes no ensino superior, intitulado “A educação é feita de recomeços”. No texto, o autor resgata a origem do Dia do Estudante e analisa as transformações do ensino superior brasileiro, destacando a diversidade de trajetórias acadêmicas e defendendo a educação como instrumento de oportunidade, continuidade e mobilidade social.
Texto na íntegra
A educação é feita de recomeços O Dia do Estudante nasceu de um aniversário. Em 11 de agosto de 1827, o Brasil criou seus dois primeiros cursos superiores, as faculdades de Direito de São Paulo e de Olinda. Cem anos mais tarde, a data virou homenagem nacional a quem estuda. Naquele começo, estudar era percorrer um caminho único e estreito, reservado a pouquíssimos. Quase dois séculos depois, o retrato é outro. O país passou de 10 milhões de matrículas na graduação, o maior número em 45 anos de mensuração. Pela primeira vez, mais da metade dessas matrículas estão na educação a distância. Na mesma turma, presencial ou virtual, o jovem recém-chegado do ensino médio convive com o profissional que estuda depois do expediente e com a mãe que resolveu retomar os estudos. O caminho único deu lugar a muitos caminhos possíveis. Não por acaso, o fórum que vai reunir o setor em setembro, o 28º FNESP, resume o momento como a passagem “de um caminho consolidado a múltiplas direções”. Celebrar essa diversidade exige honestidade em relação às pessoas que permanecem sem sequer conseguir nomear esses caminhos, quanto mais percorrê-los em uma trajetória de mobilidade social. Apenas um em cada cinco brasileiros de 18 a 24 anos está matriculado no ensino superior, proporção parada há anos. Entre os que concluem o ensino médio, só um terço segue estudando no ano seguinte. E entre os que entram, muitos não conseguem ficar: na graduação a distância da rede privada, a evasão passa de 40% ao ano. A causa raramente é desinteresse: quase dois terços dos atrasos de mensalidade começam com perda de emprego ou de renda. A trajetória se interrompe por diversos fatores, mas o principal é a ausência de suporte para dar os próximos passos. Falo desse tema também a partir da minha própria experiência. Iniciei minha vida profissional antes de ingressar no ensino superior e cheguei ao diploma graças ao crédito educacional. Aprendi, pela minha própria experiência, que a educação não se constrói em linha reta. Ela é feita de pausas, desvios e recomeços, como acontece com a maioria das pessoas. Quem tranca um semestre ou muda de curso não fracassou, e quem volta a estudar mais velho muito menos. O valor de uma trajetória está no que acontece depois dos desvios. Há 54 anos, a Fundacred atua exatamente nesse ponto: transformar a falta de recursos em oportunidade de continuidade, por meio do crédito educacional. Meio século de convivência com estudantes nos ensinou que investir em estudo é viabilizar tempo. Tempo de concluir o curso e de transformar esforço em profissão. E nos ensinou também que trajetórias se conectam: cada estudante que se forma abre caminho para outros da mesma família e do mesmo território. O dia 11 de agosto é a data que se comemora o Dia do Estudante e, não por acaso, também o Dia do Advogado, profissão que só pude exercer graças ao crédito educacional, minha mensagem é para quem está no meio da travessia. Para quem divide os dias entre o trabalho, as aulas e a prova da semana. Vale a pena continuar. Nenhuma trajetória precisa ser igual à outra, e um desvio não determina o destino de ninguém. Às vésperas de completar dois séculos, o Dia do Estudante renova uma pergunta que me acompanha desde que entrei na Fundacred: quantas trajetórias o Brasil ainda interrompe antes da conclusão? Avançamos muito, mas ainda estamos longe do suficiente. Como país, precisamos ampliar as oportunidades para que o acesso ao ensino superior se transforme, cada vez mais, em permanência, conclusão e mobilidade social. Nivio Lewis Delgado Presidente da Fundacred

