A inteligência artificial já está presente na rotina de empresas brasileiras, mas ainda tem baixo impacto direto sobre custos, eficiência e resultados financeiros, segundo a 3ª edição do Panorama Mindset Digital. O estudo foi apresentado nesta segunda-feira (21), durante a Semana Caldeira, em Porto Alegre, e ouviu 350 empresas de 15 segmentos. Conduzida pelo Brivia_Group em parceria com o Instituto Caldeira e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a pesquisa busca medir o nível de maturidade digital das empresas e identificar gargalos e oportunidades de transformação.
O Brasil alcançou média de 72 pontos, em uma escala de zero a 100, no Digital Maturity Score (DMS), índice utilizado pelo levantamento. O resultado coloca o país na faixa de “Sensibilização”, próxima do nível de “Otimização”. Segundo a pesquisa, o indicador mostra que a resistência à digitalização perdeu espaço, embora ainda existam pontos a serem desenvolvidos.
O levantamento expõe uma contradição estrutural: o país é altamente competente em construir marcas com propósito e ambientes de trabalho colaborativos, mas ainda enfrenta dificuldades na execução de infraestrutura tecnológica, na unificação de dados e na aplicação tática da automação”, explica o estrategista de negócios do Brivia_Group, Christiaan van Hattem.
IA ainda distante das decisões estratégicas
Entre os sete pilares avaliados pela pesquisa, “Propósito e Comunidade” obteve a maior pontuação, com 80 pontos, alcançando a faixa de “Otimização”. Já “Aprendizado Orientado por Dados” somou 69 pontos e “Digitalização”, 67, indicadores associados pelo estudo à dependência de processos manuais e à falta de centralização do conhecimento.
A dimensão “IA & Gestão Eficiente”, incluída nesta edição, teve a menor pontuação geral, com 56 pontos. O levantamento aponta que assistentes virtuais e ferramentas de inteligência artificial generativa já são utilizados em atividades operacionais, mas a tecnologia ainda tem participação limitada nas decisões de C-Level e na redução direta de custos e no aumento dos lucros, medidos pelo P&L. “A pesquisa aponta que a inteligência artificial no Brasil ainda resume reuniões, enquanto a maturidade real exige IA prescritiva para preço, logística e churn. Sem governança da alta diretoria, a adoção algorítmica não atinge o balanço financeiro”, observa Christiaan van Hattem.
O estrategista também relaciona o aproveitamento da tecnologia à estruturação dos dados. “A IA não é uma solução mágica. Uma boa execução depende de uma construção estratégica e de uma base de dados estruturada”, conclui van Hattem, ressaltando a importância da democratização do conhecimento que, segundo ele, muitas vezes permanece concentrado em diferentes áreas das empresas.
Diferenças entre setores
O levantamento identificou diferenças entre os 15 setores analisados. O segmento farmacêutico registrou 83 pontos e ficou na primeira posição do ranking, resultado associado pelo estudo à adoção de processos digitais integrados e às exigências de governança e metodologia do setor.
Transporte e logística alcançou 79 pontos e ficou em segundo lugar, com destaque para o uso de roteirização inteligente e automação. O setor de energia aparece na terceira posição, com 77 pontos.
Na outra ponta, Agricultura e Pecuária registrou 64 pontos, ocupando a 14ª colocação. De acordo com a pesquisa, o setor utiliza tecnologias como maquinário autônomo, biotecnologia e drones nas atividades do campo, mas apresenta menor nível de digitalização em processos corporativos, relacionamento com clientes e integração de dados.
O setor de saúde ficou na última posição, com 54 pontos. O estudo aponta que, apesar do uso de equipamentos médicos e ferramentas de diagnóstico de alta tecnologia, a jornada dos pacientes ainda é fragmentada entre diferentes canais de atendimento.
Ranking setorial
- Farmacêutica — 83 pontos
- Transporte e Logística — 79 pontos
- Energia — 77 pontos
- Educação — 75 pontos
- Tecnologia da Informação — 75 pontos
- Bens de Consumo — 74 pontos
- Comunicação — 74 pontos
- Construção e Serviços Especializados — 74 pontos
- Utilidades e Serviços Públicos — 73 pontos
- Têxtil e Vestuário — 72 pontos
- Alimentos e Bebidas — 69 pontos
- Varejo — 67 pontos
- Serviços Financeiros — 66 pontos
- Agricultura e Pecuária — 64 pontos
- Saúde — 54 pontos
Quatro caminhos apontados pelo estudo
Para ampliar os resultados financeiros relacionados aos investimentos em tecnologia, a pesquisa apresenta quatro direcionamentos estratégicos. O primeiro é a “implosão dos silos de dados”, com financiamento de data lakes centralizados para permitir operações omnichannel e ampliar a aplicação de projetos de inteligência artificial.
O segundo é a adoção de uma “Cultura de Growth”, com descentralização da tomada de decisões, testes em ambientes controlados, redução de etapas de aprovação e abertura de iniciativas de pesquisa e desenvolvimento por meio de Open Innovation com universidades e startups.
O terceiro direcionamento é a captura de first-party data, com a criação de canais próprios de conteúdo e relacionamento para reduzir a dependência de mídia paga e ampliar o conhecimento sobre os clientes.
O quarto é a presença da inteligência artificial na tomada de decisões da alta gestão. A pesquisa propõe a migração de uma IA utilizada principalmente em tarefas operacionais para aplicações prescritivas e preditivas relacionadas ao P&L, com foco em automação, precificação, logística e retenção de clientes.
Chegamos ao fim da inovação superficial. Para destravar valor de fato, as empresas precisam colocar a IA no topo das decisões estratégicas, integrada a bases de dados unificadas e voltada para o que realmente importa: a rentabilidade do negócio e a experiência do consumidor”, destaca o CEO do Brivia_Group, Marcio Coelho.
Metodologia
A coleta de dados da terceira edição do Panorama Mindset Digital ocorreu entre setembro de 2025 e março de 2026. O levantamento utilizou a metodologia BXM (Brand Experience Management), desenvolvida pelo Brivia_Group, para avaliar 100 indicadores distribuídos em sete pilares relacionados à transformação digital.
A metodologia busca medir o nível de preparação das marcas para o cenário de transformação digital por meio de um questionário respondido individualmente por profissionais de empresas brasileiras.
O Brivia_Group atua nas áreas de tecnologia e marketing e reúne as marcas Brivia, Heads, Peppery, A2C, Dez, Pravy, Elementar Digital e SR Consulting. Entre os clientes citados pelo grupo estão Petrobras, BNDES, Vivo, Adidas, Ânima, iPlace, Whirlpool, Volkswagen Caminhões, Azul Linhas Aéreas, Magalu, Seara, Grupo Fleury, Porto Seguro e KPMG.

