O fim do bônus demográfico reduz o espaço para que o crescimento da população em idade de trabalhar impulsione a renda por habitante no Rio Grande do Sul, segundo estudo do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa (Ifep-RS). A segunda nota técnica da série “Estudos em Crescimento Econômico e Produtividade” aponta que, diante do envelhecimento da população, o estado precisará aumentar a produtividade do trabalho para manter o ritmo de crescimento da renda observado nas últimas duas décadas. O levantamento projeta que, sem aceleração da produtividade, o PIB gaúcho poderá chegar a 2040 com R$ 67,7 bilhões a menos.
O chamado bônus demográfico, período em que a parcela da população em idade ativa favorece o crescimento econômico, terminou no Rio Grande do Sul em 2014, quando as pessoas entre 15 e 64 anos representavam 70% da população, segundo o Ifep-RS. O pico ocorreu três anos antes do registrado no Brasil, em 2017. Desde então, a proporção vem diminuindo.
A contribuição da estrutura etária para o crescimento da renda por habitante também caiu. Conforme o estudo, passou de 0,81 ponto percentual ao ano entre 2002 e 2008 para 0,07 ponto percentual entre 2019 e 2023, uma redução superior a 90%.
Mercado de trabalho
A melhora do mercado de trabalho contribuiu para o crescimento da renda entre 2019 e 2023, período em que a taxa de desemprego recuou de 8,1% para 5,3%. Segundo o estudo, porém, esse movimento ocorreu em grande parte pela recuperação do emprego após anos de desempenho mais fraco.
Com a desocupação próxima dos menores níveis da série histórica e taxas de participação relativamente elevadas em diferentes faixas etárias, o levantamento aponta que há menos espaço para sustentar o crescimento econômico apenas com o aumento do número de trabalhadores.
Para o presidente do Sistema Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn, a mudança demográfica altera as condições para o crescimento econômico do estado. “Os dados da segunda nota do Ifep deixam evidente uma transformação profunda na realidade gaúcha. Por décadas, contamos com uma estrutura populacional favorável, que impulsionou nossa economia. Mas esse ciclo se encerrou. O envelhecimento populacional nos impõe a urgência de agir sobre a eficiência, pois não poderemos mais crescer apenas aumentando o número de trabalhadores. Para garantir o bem-estar e o avanço da renda das famílias gaúchas nos próximos anos, a sociedade e o setor produtivo precisam focar em reformas e investimentos que destravem o ambiente de negócios e ampliem a eficiência da nossa economia”, comentou Bohn.
Projeções para 2040
Para estimar os efeitos da mudança demográfica até 2040, o Ifep-RS elaborou dois exercícios com base nas projeções populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e na manutenção do ritmo de crescimento da produtividade registrado nas últimas duas décadas.
A renda por habitante, que cresceu em média 1,05% ao ano entre 2002 e 2023, teria crescimento entre 0,56% e 0,83% ao ano até 2040, dependendo da evolução da participação no mercado de trabalho e da taxa de ocupação.
Em um dos exercícios, caso o Rio Grande do Sul repetisse até 2040 o crescimento da renda por habitante registrado nas últimas duas décadas, o PIB per capita chegaria a aproximadamente R$ 78 mil. No cenário que considera as projeções populacionais do IBGE e não prevê aceleração da produtividade, o valor seria de cerca de R$ 71,8 mil.
A diferença seria de aproximadamente R$ 6,2 mil por habitante. Considerando a população gaúcha projetada para 2040, o estudo estima uma diferença de R$ 67,7 bilhões no PIB do Estado. Como referência de escala, o valor corresponde a 9,2% do PIB gaúcho de 2023.
A produtividade do trabalho cresceu, em média, 0,65% ao ano entre 2002 e 2023. Para que o estado consiga repetir o crescimento de 1,05% ao ano da renda por habitante observado no período, segundo os exercícios do Ifep-RS, a produtividade precisaria avançar entre 0,87% e 1,14% ao ano. Isso representa uma aceleração de 34% a 75% em relação ao ritmo registrado nas duas últimas décadas.
Envelhecimento da população
A parcela da população gaúcha entre 15 e 64 anos deverá passar de 68,1% em 2023 para 64,8% em 2040, de acordo com as projeções utilizadas pelo estudo. No Brasil, a proporção deverá chegar a 67,2% em 2040.
Os dados indicam que o Rio Grande do Sul está em uma etapa mais avançada da transição demográfica em relação ao país e deverá sentir antes os efeitos da redução da população em idade de trabalhar sobre o mercado de trabalho e o crescimento econômico.
O diretor-executivo do Ifep-RS, Lucas Schifino, afirmou que a produtividade passa a ter papel central nesse cenário. “A transição demográfica ocorreu antes e de forma mais intensa no RS do que no restante do país. Nas últimas duas décadas, tivemos uma ajuda importante da demografia para o crescimento da renda por habitante, mas essa contribuição praticamente acabou. Agora, mesmo para repetir um crescimento de apenas 1,05% ao ano, a produtividade terá de avançar entre 34% e 75% mais rápido. Ou seja, manter um desempenho que já foi baixo exigirá mais produtividade do que antes”, comentou Schifino.
Segundo o dirigente, elevar a produtividade não significa aumentar a quantidade de horas trabalhadas, mas produzir mais valor com os mesmos recursos. “Produtividade é conseguir gerar mais renda e mais valor com a mesma quantidade de trabalho. Entender por que esse indicador avançou tão pouco no Rio Grande do Sul e quais fatores estão por trás desse desempenho é o próximo passo da série”, pontuou Schifino.
O estudo “Estudos em Crescimento Econômico e Produtividade” está disponível na íntegra pela web.


