CongregaRH debate futuro do trabalho e desafios da liderança

Por Jonathan da Silva

O segundo dia do CongregaRH, nesta quinta-feira (1º), reuniu especialistas para discutir saúde emocional, inteligência artificial (IA), competências humanas, criatividade e liderança diante das transformações nas organizações. Realizado no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre, o evento é promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos seccional Rio Grande do Sul (ABRH-RS) e segue até esta sexta-feira, dia 2, com programação voltada aos caminhos do trabalho, das organizações e das relações humanas. Com o tema “Quem Imagina o Futuro?”, a 19ª edição aborda a criação de novas possibilidades e o papel das pessoas na construção dos futuros do trabalho.

A programação da tarde começou com a palestra “Pausa para Ser: Experiência com Técnicas de Terapia do Som”, conduzida pelo músico formado pela Berklee College of Music, pós-graduado em neurociência pelo Sírio-Libanês e fundador da Damaru Terapia Sonora, Rafael Cameron. A atividade propôs uma experiência com técnicas de terapia do som para ampliar a percepção, promover a regulação emocional e criar momentos de pausa diante do excesso de informações e estímulos da vida contemporânea.

Durante a palestra, Cameron destacou que pensar sobre o futuro exige flexibilidade cognitiva e imaginação para encontrar alternativas diante de desafios e conflitos. A atividade incluiu exercícios práticos e uma imersão sonora, com diferentes estímulos utilizados para demonstrar como o som pode influenciar a percepção e a resposta das pessoas ao ambiente.

Na sequência, o consultor, diretor executivo do Centro de Experiência e Serviços da Universidad Adolfo Ibáñez e sócio da Human X, Claudio Lopez, apresentou a palestra “Presente e Futuro da Gestão de Pessoas: um Grande Desafio”. Ele abordou as transformações provocadas pela tecnologia e afirmou que o principal desafio para as organizações não está apenas nas novas ferramentas, mas na forma como pessoas e empresas aprendem a lidar com elas.

Lopez também tratou da escassez de talentos, da cultura organizacional e dos impactos da liderança nas relações de trabalho. Entre os temas apresentados estiveram o baixo nível de engajamento, o estresse e a necessidade de revisão de processos e práticas de gestão.

Segundo dados apresentados pelo palestrante, 32% dos trabalhadores brasileiros estão comprometidos com o trabalho. “Isso é um número muito baixo, apesar de ser um pouco acima da média na América Latina, que é de 30% e, no Chile, de 19%”, afirmou o palestrante. Para Lopez, as organizações precisam superar práticas que priorizam o controle em vez de habilitar as pessoas e evitar processos que não geram resultados concretos.

IA e competências humanas

A futurista, fundadora da Seek Futures e especialista em Strategic Foresight, Letícia Setembro, apresentou a palestra “O Futuro do RH”. Ela apontou o comportamento humano como um dos fatores que podem dificultar mudanças nas organizações e abordou o avanço da IA na área de recursos humanos.

Entre os conceitos apresentados esteve a inteligência preditiva de talentos e a chamada “dupla inteligência”. Segundo Letícia, além de saber utilizar ferramentas de IA, os profissionais precisam desenvolver a capacidade de pensar criticamente ao delegar tarefas às máquinas.

A palestrante também abordou as dificuldades relacionadas às competências humanas e à tomada de decisões. Conforme dados apresentados por ela, 80% dos profissionais de RH apontam dificuldades para encontrar competências humanas básicas.

Letícia destacou ainda que decisões que envolvem negociação e outros aspectos complexos não podem ser simplesmente transferidas para a tecnologia. Ao tratar da sobrecarga de informações, apresentou o conceito de “violência neural” e defendeu a neuroperformance como uma competência do futuro.

Para a especialista, aprender a se autorregular, desenvolver a autopercepção e construir uma inteligência temporal são habilidades necessárias para líderes diante de um ambiente de mudanças constantes. “O futuro do trabalho começa no estado de quem vai criá-lo”, afirmou Letícia.

Criatividade e liderança

A CEO da Sonata Brasil, phd em administração e especialista global em inovação, liderança e sustentabilidade, Soraia Schutel, apresentou a palestra “Sensibilidade e Arte para Liderar”. A discussão abordou a dimensão humana da liderança diante de um ambiente considerado pela especialista complexo, incerto e cada vez mais digital.

Soraia afirmou que os manuais tradicionais de gestão não são suficientes para responder aos desafios atuais e defendeu que o futuro pode ser digital, mas precisa continuar sendo humano. Nesse contexto, destacou criatividade, imaginação, sonho, sensibilidade e autoconhecimento.

Ao relacionar liderança, filosofia e arte, a especialista abordou o papel dessas áreas no desenvolvimento da clareza mental e na compreensão das características humanas. Segundo Soraia, a cultura organizacional também é construída a partir de rituais, enquanto a arte recupera uma linguagem simbólica relacionada à experiência humana.

Escassez de mão de obra

Os desafios do mercado de trabalho e o papel das lideranças em um cenário de transformações também foram discutidos pelo diretor da Fiergs e presidente do Comitê de Gestão de Pessoas da Abicalçados, Giuliano Fornazier, e pelo CEO da Unimed Porto Alegre, Leandro Firme. O painel foi mediado pela psicóloga, jornalista e host dos podcasts RH+Líder e Âncora de Carreira, Sabrina Thomazi.

Fornazier afirmou que, desde 2020, as empresas enfrentam uma sequência de crises, em um movimento permanente de “apagar incêndios”. Ele também abordou o impacto da chamada “pejotização” e do crescimento das plataformas de aplicativos sobre a disponibilidade de profissionais para a indústria. “É uma disputa muito desigual com a indústria”, afirmou o palestrante, ao tratar da concorrência por profissionais. Segundo ele, as empresas deixam de faturar valores significativos em razão da falta de mão de obra. Para o executivo, embora os ambientes de trabalho tenham passado por mudanças, os desafios das lideranças se tornaram mais complexos, aumentando o papel do RH no desenvolvimento e no cuidado com os líderes.

Na sequência, Firme compartilhou experiências profissionais para discutir como as organizações podem lidar com situações imprevisíveis. Ele relembrou sua atuação na administração de um hospital público na Baixada Santista, na gestão do Hospital São Lucas da PUCRS durante a pandemia e, mais recentemente, na Unimed Porto Alegre durante as enchentes no Rio Grande do Sul.

Segundo Firme, situações de crise exigem clareza sobre os caminhos a seguir. “Em momentos de incerteza é preciso termos clareza para onde vamos”, destacou o palestrante.

O CEO também afirmou que a escassez de mão de obra atinge diferentes setores e ampliou a competição entre empresas, que passaram a disputar profissionais também fora de seus próprios segmentos.

Escuta e bem-estar no trabalho

Firme defendeu ainda uma nova compreensão sobre a relação das pessoas com o trabalho e destacou a importância de ambientes que permitam equilíbrio e descompressão. Para ele, a liderança precisa ser continuamente repensada, com a escuta ativa como ferramenta para compreender diferentes necessidades e percepções das equipes.

Na Unimed Porto Alegre, segundo Firme, essa abordagem é aplicada por meio de iniciativas voltadas ao bem-estar dos profissionais. “Decidimos cuidar de quem cuida”, resumiu.

O CongregaRH segue nesta sexta-feira, dia 2, no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre. A programação da 19ª edição reúne lideranças e especialistas em discussões sobre trabalho, organizações e relações humanas.

Serviço

  • O quê: 19ª edição do CongregaRH
  • Quando: até sexta-feira, 2 de outubro
  • Onde: Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre
Foto: Charles Garcia/Divulgação | Fonte: Assessoria
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